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Quem é Lucas Gabriel Júnior Kim?

JUNINHO 97
Brasileiro, caçula e cristão, sendo segurança e cozinheiro em Seoul.
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a trivia vem aí.

A história é longa, viu.
Grande Juninho, menino de ouro. O mais novinho de uns doze netos. A família Kim tinha televisão em casa mas nem Halmoni e nem Harabuji nunca entenderam muito a língua e o humor dos programas de domingo - que era o único dia que eles tinham pra descansar em casa.
Pra começar que pra existir um Lucas Gabriel Júnior, teve que existir um Lucas Gabriel Primeiro. Vovô Kim era um visionário nesse negócio de nomear filho, mas desde que o pai do Juninho se meteu com coisa errada ele passou a ter um pouco de desgosto das próprias decisões.
A família Kim veio da Coréia pro Rio de Janeiro tentar a vida no Brasil há anos atrás, mas as coisas nunca mudaram muito. No máximo eles foram pra São Paulo onde tinha a comunidade coreana, largando o samba do Rio prá lá mas carregando o sotaque roído no português meio engasgado das crianças.
Ainda assim o bichinho-BR não picou ninguém e do portão pra dentro toda e qualquer tradição se manteve do mesmo jeito. Eles ainda sentavam todos juntos pra fazer kimchi na sala grandona da casa de vila antiga que eles tinham no Bom Retiro, Juninho ainda servia todo mundo antes de comer e ainda tomava puxão de orelha se olhasse pra quem tava dando esporro nele.
Do portão pra fora é que as coisas - pra ele - mudavam e muito. Tinha muita coisa que a família não via e nem sabia sobre o caçulinha. Com os amigos do colégio ele era todo cheio de vida, todo espevitado e extrovertido, com uma piadinha pra tudo e um sorrisão cheio de dente de coelho e pronto pra dar pra qualquer um. Isso aí mesmo. A timidez ficava em casa e só dava as caras às vezes, quando o flerte de mentirinha virava de verdade.
Lu Júnior era sempre o último a beijar na boca na festinha americana, mas o primeiro a botar pilha pros amigos se beijarem. Era também o que agitava as paqueras de todo mundo, mas as dele mesmo ficavam tudo em segredo. Ele escrevia várias cartinhas estilo Lara Jean e não mandava nenhuma. Às vezes viravam música que ele tirava no cavaquinho, às vezes viravam guardanapo pros chicletes que ele vivia mastigando pra controlar os nervosismos do dia a dia corrido.
Mas além de bagunceiro e agitador de pagodinhos no recreio, Luquinha Gabs também era muito dedicado e estudioso, determinado toda vida pra tudo e muito fominha de concursinho da escola, olimpíada de matemática, jogo de uno. A vida inteira ele se preparou pro vestibular de engenharia enquanto trabalhava no restaurante coreano da família, mesmo não gostando muito. Desse negócio de engenharia, no caso. Do restaurante ele amava. Atender as pessoas, bater papo no balcão, fazer as comidinhas e ver a galera curtindo e celebrando a cultura da família dele. Deixava o coração todo quentinho.
Vai ver foi por isso que ele tomou bomba em todas as provas que fez pra engenharia. Pra desespero dos avós que deram tudo pro menino, pra serem retribuídos com essa frustração toda, coitados. Foi barra pesada, depois de anos seguidos estudando igual um condenado, aceitar que talvez Deus não queria que ele fosse infeliz pro resto da vida numa profissão que ele nem sabia como era na prática… Tsc. Ê treta.
Rolou um círculo de oração na igreja e tudo, até o pastor foi falar com vovó pra ela dar pro neto um tempo, pra ele ver se ele descobria o que gostava de fazer.
As opções não pareciam muitas, na verdade. Juninho tinha já seus 21 anos, mas não tinha vivido muito além das suas bolhas. Ele treinava jiu-jitsu 3x na semana desde criancinha, dançava no grupo da igreja e cantava no coral, fazia um cursinho comunitário de inglês desses que cê nem aprende nada, mas suas outras habilidades eram todas muito práticas — nada que desse muito prestígio no longo prazo. Ele era muito bom de tudo, aí parecia que não era bom de nada.
As coisas mudaram só quando essa onda da k-pop estourou no Brasil e ele começou a postar uns covers à toa no youtube pra conquistar uns crush com dancinha bem feita. Aí a sorte brilhou e botou o moleque pra fazer uma graninha legal dançando em festival, ganhando uns concursos e sendo o intérprete quando vinha artista fazer show. O coreano dele era meio pré-escolar, mas nessa época deu pra juntar o suficiente pra comprar uma passagem pra ir conhecer a Coréia e visitar algumas pessoas da família que só viram ele de fralda.
Tinha uns tios dele que moravam em Seoul, com vida construída, negócio próprio e tal, casa grande e cheia igual a que os Kim tinham lá no Brasil. Um prato cheio pra quem tava acostumado dormir no chão, usar as roupas enormes herdadas dos primos mais velhos e a servir todo mundo. O pastor disse que ia ser muito bom pra ele a experiência, que ele ia amadurecer e se reconectar com as raízes, em nome de Jesus.
Ou pelo menos foi o que ele disse pros avós que o pastor disse, na hora de convencer os dois de que ele podia passar um ano lá em Seoul fazendo coxinha e churrasco brasileiro pros coreanos igual ele fazia com os topokki com os paulistas e turistas. Deus ia perdoar essa mentira um dia, ele tinha certeza.
Aí a permissão veio, show de bola, e Juninho saiu de Congonhas pra Incheon com uma mochila imensa, passaporte novinho em folha com 01 (um) carimbo, as unhas roídas e muita expectativa de viver várias aventuras.
A promessa era voltar no meio do ano que vem, pra ter mais seis meses estudando pro vestibular do que ele escolhesse. Mas depois de dois meses na Coréia, Juninho — ou, em bom coreano, Jun-in — já tava apaixonado pela vida nova dele.
Ele tinha mais liberdade (mesmo morando tipo o Harry Potter debaixo da escada na casa dos tios) e tava descobrindo que nem todo coreano era como os avós dele fizeram acreditar que a Coréia inteira era. Como segurança nuns bares mais alternativos ele tava conhecendo um pessoal que explodia a mente, abria horizontes e levantava os questionamentos certos sobre uns assuntos dele mesmo. Bem longe das bolhas e dos medinhos de decepcionar os avós (de perto), deu pra viver um monte nesses mesezinhos.
Eu só quero ver é quando a avó descobrir que ele tinha se ENCHIDO de tatuagem. Rapaz. O couro vai comer e não vai ser pouco, viu. Quase 24 anos na cara e ele ainda escondia a mão no casaco quando fazia video chamada com a família pro culto dominical.
Laços e família

